A Rede Jornalistas Pretos em parceria com a Faculdade de Comunicação da Universidade de BrasÃlia (UnB) realizou nesta última segunda-feira (24) o encontro “Resistir É Comunicar”. Sediado na agenda preparatória para a Marcha das Mulheres Negras 2025, o encontro teve como principal enfoque o jornalismo e a comunicação como territórios centrais de ativismo e luta por direitos das mulheres negras na comunicação.
Como uma das ações da Rede de Proteção Digital a Comunicadoras Negras (REPCONE) e organização dos programas regionais Vozes da Rede e Red de Periodistas Afrolatinos o “Resistir É Comunicar” não apenas reuniu acadêmicas e profissionais, mas também estabeleceu uma ponte entre o ativismo de base nacional e as lutas da diáspora africana nas Américas. O foco em cruzar as experiências de comunicação do Brasil com a de nações como Argentina, Uruguai e Peru sublinhou a natureza transnacional da violência racial e a urgência de construir redes para a produção de narrativas seguras, em um debate fortalecedor encontrado em uma sala cheia, dentro do campus da Faculdade de Comunicação da UnB.
Legado e luta: A injustiça informacional em foco
O evento se desdobrou em duas mesas centrais, precedidos por uma introdução realizada por Marcelle Chagas, coordenadora geral da Rede Jornalistas Pretos e Profª Dione Moura, diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de BrasÃlia. Juntas, além de demarcarem a importância do evento, sinalizaram a força e representatividade daquele encontro como celeiro de força e resistência à s mulheres comunicadoras negras.
A primeira, “Mulheres Negras Jornalistas Contam Histórias e Trazem Legadosâ€, reuniu nomes históricos e contemporâneos, como a pioneira sindicalista Jacira Silva (Cojira e Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal) a gestora e coordenadora Juliana Cezar Nunes (Agência Brasil), a cronista e escritora Waleska Barbosa e a comunicadora da CONAQ, Nathália Purificação. As palestrantes abordaram desde a luta contra o racismo estrutural nas redações até a superação da “injustiça informacional”, como apagamento de pautas sobre as periferias do Distrito Federal e territórios quilombolas pela grande mÃdia.
O debate focou em como a identidade de mulher negra molda tais narrativas, sendo a “escrevivência” (em referência a Conceição Evaristo) uma estratégia de sobrevivência e de transformação do jornalismo. Junto a suas participações e intervenções de todas as presentes, as comunicadoras também correlacionaram suas carreiras e ações de resistência a ataques e descredibilizações na comunicação, ressaltando a importância do encontro em reunir um espaço legÃtimo e de “absoluta força e reunião“, segundo Jacira, para as mulheres negras jornalistas.
Inovação, apoio e lançamento da cartilha REPCONE
A segunda mesa, “Experiências e Resistências Digitaisâ€, trouxe a dimensão transnacional da luta e do evento, com a participação de figuras como a gestora Ana Carolina Araújo (AzMina), a ativista afro-uruguaia Sandra Chagas (Comitê Global da Marcha das Mulheres Negras 2025) e a jornalista afroperuana SofÃa Carrillo (Red de Periodistas Afrolatinos), além de nomes como Tamika Middleton (Women’s March, EUA), Márcia Guena (UNEB), Mayara Nunes (Peregum) e Alejandra Pretel (Afrocolectiva). O foco foi na violência polÃtica e digital que atinge comunicadoras negras e nas estratégias de “aquilombamento” tecnológico e social, que criem um ecossistema jornalÃstico e de ativismo crescente e relevante.
Um dos pontos altos de todo o evento, neste instante, foi o lançamento da cartilha da Rede de Proteção Digital a Comunicadoras Negras (REPCONE) — que já pode ser acessada gratuitamente através deste link. O programa, que se expandiu recentemente para a Argentina, oferece suporte psicossocial e jurÃdico, reconhecendo que a violência digital exige uma resposta que vai além da tecnologia, tocando o emocional e legal. As discussões enfatizaram a importância de construir “tecnologias griô”, ferramentas que valorizam o conhecimento ancestral para mobilização social.
A cartilha, que incluiu o Instituto AzMina e o Afrocolectiva como parceiros e também representantes no evento, foi definida como um marco do debate e ênfase na construção de redes de ativismo e proteção digital à s comunicadoras. “É um passo adiante no qual muitas de nós sempre precisamos e é gratificante perceber o quanto no futuro podemos fazer isso para outras comunicadoras que virão.“, ressaltou Sandra Chagas
Reconhecimento e Legado ContÃnuo
O evento culminou com uma homenagem emocionante à Professora Dra. Ceres Santos (UNEB). Ela, também uma das homenageadas na edição 2025 do Prêmio + Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira, teve como discurso de tributo uma celebração não apenas à sua trajetória, mas a importância perante comunicadoras negras.
Reonhecendo sua força como Ebomi no Ilê Axé Torrunde, sua formação acadêmica de excelência (PUC/RS, ECA/USP) e seu papel como Professora e pesquisadora que utiliza temas como Ação Afirmativa e racismo na mÃdia. Tal momento reafirmou e encerrou o evento com uma mensagem importante: do valor que legados na comunicação negra e feminina exercem na vida das profissionais de hoje e no futuro, além da atuação extra-jornalÃstica da luta por espaço destas comunicadoras, que acima de tudo são pessoas, nas quais o ato de resistência se tornou o comunicar de muitas hoje e nos anos que virão.
Parte do evento pôde ser acompanhada através de transmissão ao vivo no canal da Rede Jornalistas Pretos no YouTube. Veja:
Galeria de fotos
Fotos: LaÃs Apolinário e Adriana Caitano