Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém, no Pará, em novembro, surge uma importante pauta: o viés antirracista e de inclusão nas coberturas tanto para grandes veÃculos, como, principalmente, para organizações independentes, que prezam por narrativas locais.
Baseado neste tema, o Observatório da Branquitude lançou, no último dia 22 de outubro o “Guia de Cobertura para Comunicadores: Educação, Antirracismo e COP”. O documento e cartilha visa subsidiar jornalistas, comunicadores e pesquisadores a produzir uma cobertura sobre a emergência climática que coloque as populações mais vulneráveis, especialmente negras e indÃgenas, no centro do debate.
Reunindo desde levantamentos, amostras de pesquisas históricas e verbetes, o Guia, disponÃvel online através deste link, oferece um arsenal de insumos para o debate do jornalismo ambiental antirracista: desde conceitos e verbetes da pauta socioambiental até um banco de fontes qualificadas, passando por leis, referências bibliográficas e um panorama da própria COP30.
A Rede Jornalistas Pretos traz alguns dos principais temas do Guia, imprescindÃveis para a cobertura da COP30 e de pautas voltadas ao jornalismo ambiental em suas diversas vertentes.
Panorama geral do racismo ambiental
De acordo com Thales Vieira, diretor de programas e estratégias do Observatório da Branquitude, o Guia visa estabelecer parâmetros de conhecimento aos comunicadores. “Pretendemos auxiliar jornalistas e comunicadores a terem parâmetros para uma cobertura que considere e respeite saberes ancestrais, reconhecendo o conhecimento e as vivências das populações negra e indÃgena”.
Segundo ele, essa abordagem “tem sido, até agora, muito pouco explorada pela mÃdia em geral, o que gera desconexão com essas realidades”. O guia compila uma série de dados que conectam diretamente a desigualdade racial no Brasil à vulnerabilidade climática, começando pela própria infraestrutura escolar.
As escolas de educação básica com melhor infraestrutura no paÃs reúnem majoritariamente alunos brancos (69% do total). Em contrapartida, nas escolas de maioria negra, mais da metade não possui biblioteca (50,2%), laboratório de informática (53,1%) ou quadra de esportes (51,7%).
Apenas 50,1% das escolas públicas brasileiras possuem projetos pedagógicos para combater o racismo, a menor taxa da série histórica desde 2011. O abismo no desempenho entre alunos brancos e não brancos no 9º ano (LÃngua Portuguesa) aumentou após a pandemia. A diferença, que era de 9,6 pontos percentuais em 2013, saltou para 14,1 pontos em 2023. Enquanto 98,2% dos alunos brancos têm acesso a água, energia e esgoto, esse Ãndice é de 90% para alunos indÃgenas em escolas convencionais, mas despenca para 21% em escolas localizadas dentro de terras indÃgenas (MEC/BID).
A conexão destes números com a crise climática é direta: 36,4% das escolas de maioria negra estão situadas em áreas com temperaturas 3,57°C acima da média da capital, contra apenas 16,5% das escolas de maioria branca.
Cinco pontos de atenção para uma cobertura antirracista no jornalismo ambiental e a COP30
Através destes dados, o Guia dá, entre suas principais informações, pontos de atenção para a cobertura antirracista no jornalismo ambiental. Após a série de amostras sobre a fragilidade e incipiência do assunto entre os veÃculos nacionais em matérias e coberturas de comunicação ecológica e eventos do tema, a cartilha aponta cinco tópicos que devem ser chave na cobertura da COP 30.
Eles estarão na programação do evento, mas é importante, segundo o Guia, que veÃculos e comunicadores usem os temas como pontos de partida para se pensar a forma de cobrir jornalismo ambiental no Brasil e mundo.
• Perdas e Danos — A discussão sobre compensação financeira perante impactos à s terras e recursos naturais deve ser analisada sob a ótica especÃfica das comunidades negras, indÃgenas e tradicionais. Os recursos de reparação, por exemplo, podem ser investidos na compreensão e difusão das Leis nº 10.639 e nº 11.645 (sobre história e cultura afro-brasileira e indÃgena) e da ampliação das legislações – voltadas a preservação de recursos hÃdricos e naturais nacionais de populações negras e originárias – no dia a dia.
• Reforma da Governança Global — A proposta brasileira de criar um Conselho da Organizações das Nações para o Clima pode abrir espaço para a participação da sociedade civil no debate. As coberturas devem atentar para a importância de reconhecer os saberes ancestrais como instrumentos fundamentais na busca por soluções e a voz das populações e habitantes locais sobre o clima de onde vivem e possÃveis impactos.
• Financiamento Climático — Acompanhar a ampliação do financiamento, a harmonização de mercados de carbono, bioeconomia e uso de Inteligência Artificial em tecnologias, verificando se esses mecanismos servirão para aprofundar ou para combater as desigualdades ambientais e também da efetividade dos apoios financeiros.
• Transição Energética Justa — Questionar como a “transição justa” para energias renováveis tem, muitas vezes, ferido direitos de comunidades negras e indÃgenas. A cobertura deve cobrar que o conceito seja ampliado para incorporar o respeito aos direitos humanos e aos conhecimentos ancestrais.
• Adaptação e Mitigação de Riscos à s Populações — As propostas para preparar populações vulneráveis devem ser baseadas em soluções da natureza e saberes locais. A cobertura pode destacar a importância do conhecimento tradicional, como a memória ecológica, os calendários agrÃcolas tradicionais e os sistemas de uso do solo e plantio.
Impacto para além do Guia: oficina online “Cobertura de Educação, Antirracismo e Justiça Climática”
Além das ações de lançamento do “Guia de Cobertura para Comunicadores: Educação, Antirracismo e COP”, o Observatório da Branquitude também promoverá a participação de comunicadores e profissionais da imprensa na oficina online “Cobertura de Educação, Antirracismo e Justiça Climática”, que acontece em duas datas, nos dias 30 de outubro e 6 de dezembro, das 10h à s 11h30. O link para as inscrições pode ser acessado através deste endereço.
Antes e pós-COP 30, os encontros têm o objetivo de promover um espaço de aprendizado coletivo e troca de experiências sobre os desafios e possibilidades de uma cobertura antirracista sustentável das agendas climáticas e educacionais mundiais.