O mapa do jornalismo brasileiro está sendo transformado, e a mudança vem distante dos grandes centros urbanos: ela está nas periferias e das comunidades como centro de resistência da mídia independente.
Recente levantamento do Atlas da Notícia 2025, sua mais nova edição, revela que o crescimento do jornalismo no Brasil é impulsionado por iniciativas digitais de baixo custo, um fenômeno diretamente ligado à emergência e ao fortalecimento da comunicação comunitária. De acordo com a pesquisa, é neste recorte que a mídia afrocentrada também impera na editoria e acessibilidade destes veículos.
Conduzida pela Projor (Organização de Desenvolvimento do Jornalismo) e pelo Volt Data Lab, a coleta de dados foi realizada entre outubro de 2024 e junho de 2025. O censo mostra que, embora haja uma crise que ainda afete o setor, a disposição dos comunicadores locais está reduzindo os chamados “desertos de notícias”, municípios que não possuem nenhum veículo de imprensa sediado em sua área geográfica e sem cobertura jornalística.
A Rede JP traz alguns detalhes do levantamento e o que ele aponta para o futuro da comunicação afrocentrada e independente do Brasil.
O crescimento digital
O segmento online é o grande motor da expansão jornalística, e é aqui que o jornalismo periférico e comunitário assume um papel de protagonismo: Redução dos Desertos de Notícias. Nos últimos dois anos, o Atlas registrou uma redução de 7,7% no número de municípios sem cobertura jornalística local. O saldo foi de 208 municípios que passaram a contar com pelo menos um veículo, graças, em grande parte, à multiplicação de iniciativas digitais. O número de iniciativas online cresceu 8,9%, adicionando 467 novos veículos ao mapeamento.
O incremento é quase o triplo do saldo somado de novas rádios e TVs, mostrando a agilidade do digital. Dentro desse crescimento online, 1.856 veículos (cerca de um terço do total) são classificados como iniciativas individuais ou blogs. Esse formato é a espinha dorsal de muitas mídias de periferia, que operam com equipes enxutas e foco hiperlocal. Na editoria dos veículos, está um corpo profissional majoritariamente negro, o que frisa a tônica de um jornalismo antirracista na produção destas organizações, muitas delas não governamentais e também voltadas ao ativismo negro.
O exemplo mais claro dessa vitalidade é o Nordeste, que incorporou 283 novas iniciativas (crescimento de 10,96%), com a mídia comunitária muitas vezes migrando de sites para as redes sociais como tática de sobrevivência e distribuição.
Desafios e percalços: a luta contra a falta de acessibilidade
Apesar do avanço, a pesquisa destaca que a luta pela informação ainda está longe de ser vencida. Em 2.504 localidades mapeadas, aproximadamente 20,66 milhões de pessoas (10,2% da população) vivem sem jornalismo local em atividade. Em cada 20 municípios periféricos brasileiros, nove são desertos de notícias, quase metade deles.
A maioria dos veículos jornalísticos ainda se concentra nas grandes cidades, segundo o levantamento. Embora a mídia periférica atue para descentralizar a cobertura, as regiões metropolitanas, incluindo as periferias, continuam sendo as áreas mais críticas em termos de cobertura local e independente.
O Nordeste (890 municípios) e o Sudeste (830 municípios) ainda detêm a maior quantidade de desertos. No caso do Sudeste, a proporção (49,76% dos municípios) é alarmante, dado o seu peso populacional.
A necessidade de atenção e apoio à mídia independente
O Atlas alerta que, apesar de “louvável” a disposição de sobreviver, essa mídia carece de apoio e corre risco. O segmento carece de estrutura comercial/gestão, e a vulnerabilidade é alta: 334 veículos online fecharam desde o último censo em 2023.
A falta de apoio adequado põe em risco a memória digital do cotidiano das cidades. Quando um veículo periférico fecha, parte da história local e das pautas sociais se perde, gerando um apagamento da memória do cotidiano. A luta pelo direito à informação de qualidade é, hoje, inseparável da luta pela sobrevivência do jornalismo de base, que precisa ser visto e tratado como um pilar de nossa democracia.
Caminhos e sobrevivência do jornalismo de base
Apesar dos desafios, o jornalismo periférico e afrocentrado independente pode e tem caminhos fortes de subsistência. Os dados do Atlas da Notícia mostram uma força no movimento, mas frisam a necessidade de ações para que haja não apenas a migração de mais veículos como pontes fortes no meio fora dos grandes centros, como a manutenção das organizações promovendo a diferença no jornalismo nacional.
Incubadoras de incentivo, cursos de capacitação e a construção de um mercado verticalizado são alguns dos meios nos quais o jornalismo independente nas periferias pode e se mantém vivo. Através de ações, promoção de oportunidades a profissionais e implantação de profissionais negros, moradores das comunidades, fora dos epicentros em organizações e grandes centros são a espiral que faz e continuará sendo a principal forma da roda girar — e que assim continue por muito tempo.