Chefe da sucursal da Casa Branca no The Washington Post, o americano Toluse “Tolu” Olorunnipa é uma das referências matrizes do jornalismo mundial político e econômico hoje pela sua atividade na editoria. Além de análises e cobertura intensa de governo e política monetária no jornal, esteve em diversas editorias e posições em inúmeros veículos prévios, ganhando também honrarias e prêmios.
Ele recebeu, em 2023, o Prêmio Pulitzer pela sua atividade profissional de destaque racial dentro destes espectros e pela coautoria do livro “His Name is George Floyd”, onde além de contar a história do rapaz negro assassinado brutalmente, reflete o impacto de sua chocante morte no movimento antirracista nos Estados Unidos e no mundo.
Com a bagagem e por toda sua carreira, o jornalista é um dos nomes internacionais presentes no 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji deste ano. O evento também conta com diversas mesas e debates entre vários assuntos, além de inúmeros convidados, incluindo a Rede Jornalistas Pretos, que participará de um debate sobre saúde mental na comunicação.
Em meio a sua participação no 20º Congresso da Abraji, Toluse conversou com a Rede JP, e falou sobre jornalismo, desigualdade, incentivo a mídia independente, desinformação e a importância da construção do olhar racializados no espectro econômico e político.
Nascido nos Estados Unidos em uma família iorubá da Nigéria, Toluse carrega no corpo e na trajetória uma experiência multifacetada entre culturas que moldaram sua sensibilidade jornalística. Ao refletir sobre sua origem, ele desabafa sobre a importância de se manter conectado às raízes. “Meus pais são da Nigéria, e eu também costumo ir para lá. Essa conexão me trouxe até o Brasil, até Salvador. A cultura afro-brasileira é linda, comida, vestimentas, músicas… tudo isso tem raízes que também são minhas”, contou.
Formado em Sociologia pela Universidade de Stanford e com passagens por veículos como Bloomberg, Wall Street Journal e Miami Herald, Tolu cobre política e economia nos EUA há mais de uma década, com frequentes análises nas redes CNN e NPR. “Sempre fui curioso, desde jovem. Fascinado por culturas, pessoas, histórias. Fazer jornalismo é uma forma de me conectar com essas experiências diversas culturais e ajudar outras pessoas a aprendê-las também“, disse sobre o que o levou ao jornalismo.
Desigualdade de acesso à informação: um desafio global
Olorunnipa faz questão de reforçar seu compromisso com a equidade racial acima do jornalista político e econômico. Ao pontuar sobre o tema, o colunista e especialista frisa o quanto jornalismo é, em si, uma ferramenta poderosa, mas que sua potência esbarra, muitas vezes, na profunda desigualdade de acesso à informação. Desigualdade, sobretudo, racial. “As comunidades marginalizadas não têm o mesmo acesso à informação. E mesmo quando têm, não possuem as ferramentas para interpretá-la do mesmo modo. Isso é reflexo da desigualdade educacional, econômica e social: e afeta, em graus diferentes, a população negra ao redor do mundo. Escrevo sobre isso, pesquiso sobre, cubro. É uma questão primordial“, enfatiza.
Ele observa que essa desigualdade de representação nos meios de comunicação contribui diretamente para o avanço da desinformação. “Nós [negros] vivemos presos. Isso alimenta a desconfiança na mídia. Quando você não se vê nas narrativas, não se vê nos repórteres, não se vê nos temas, você se desconecta“.
Para ele, o combate à desinformação passa necessariamente pela reconstrução do ecossistema de informação com representatividade e pluralidade. “Elas, as pessoas negras têm um motivo para não confiarem na mídia, são suscetíveis a factóides por falta de confiança e de se verem como espelho das narrativas e suas demandas. Isso é um grande desafio. Então a luta contra a desinformação é a luta para representação na mídia. Que ela seja o espelho de uma comunidade, de todos os tipos de pessoas de distintos panoramas sociais”, declara.
Muito mais que o ato: o investimento
Toluse também defende a redistribuição de recursos para iniciativas midiáticas racializadas e comunitárias como ação concreta para enfrentar essa disparidade. Ele frisa o quanto o combate à desinformação intrinsecamente está ligado ao incentivo ao jornalismo diversificado. Principalmente, mais que fazer uma atividade jornalística antirracista, incentivar e investir em projetos e veículos que o fazem.
“A luta contra a desinformação é a luta para representação na mídia. Nesse processo, relocar recursos para mídias independentes racializadas, de comunidades de acesso restrito ou não cobertas pela mídia tradicional é também parte dessa luta. É muito importante proporcionar esses recursos para propiciar que haja o contato com esses grupos, estas pessoas. Encontrar essas comunidades e ouvi-las e não as fazerem chegar até você e se encaixar.”
O jornalismo político e econômico como ferramenta social
A trajetória do jornalista, que começou cobrindo economia e negócios e hoje lidera a cobertura política da Casa Branca, está, segundo o próprio, atravessada por um olhar estruturante sobre os impactos da política na vida das pessoas comuns. Toluse pontua o quanto ambas editorias não são, em sua atividade, afastadas de uma sensibilidade social e empática a comunidades periféricas e, claro, racializadas.
“Comecei a cobrir negócios e economia muito cedo. Nos últimos anos trabalho em Washington, capital dos EUA, cobrindo política e movimentos da Casa Branca. Tudo isso afeta a economia e a desigualdade também, então muita da minha cobertura tem o viés do impacto para as políticas públicas e o impacto das iniciativas tomadas na vida das pessoas e a importância histórica de todos, incluindo nós negros. Diria que meu foco é políticas, economia e finanças e a seriedade destes temas na vida e estrutura social para todos nós”, diz o jornalista.
Chamado à mudança
Ao fim da conversa, Tolu compartilhou uma mensagem direta à comunidade jornalística negra brasileira, fazendo um chamado a uma mudança que inclui a manutenção de um trabalho já feito com seriedade no país. E que ele mesmo se diz fã.
“Mantenham o que estejam fazendo. Conheço o trabalho que fazem, que vocês [Rede JP] fazem. Acesso e gosto de muita coisa do Brasil. É uma nação que cada vez mais está desempenhando um papel importante na mídia internacional, então continuem trabalhando duro e bem. Continuem sendo essa força! Vocês são a diferença.”